Uma aliança fundamental

Uma luta que entrelace trabalhadores do setor de energia, ambientalistas, povos originários e o povão é estratégica pra conseguirmos uma transição energética a serviço dos povos e do planeta

Desde 1972, o mês de junho motiva reflexões sobre a relação da humanidade com o restante da Natureza. No dia 5 de junho daquele ano, a Conferência de Estocolmo, na qual estavam reunidos mais de 100 Estados-membros da ONU, instituiu o Dia Mundial do Meio Ambiente.

Nesses últimos cinquenta anos, a sociedade passou por profundas mudanças econômicas e ambientais. Notadamente, em 2025, sete dos nove limites planetários foram excedidos¹. Em onze meses de 2024, o planeta ultrapassou 1,5°C acima da média histórica pré-Revolução Industrial, transbordando o limite considerado seguro para o equilíbrio da reprodução da vida². A esses dados estão combinados eventos extremos em diversos países, atingindo desigualmente populações socialmente vulnerabilizadas. O marco histórico da industrialização em países centrais é incontornavelmente associado à consolidação dos combustíveis fósseis como basilares para a economia.

Por sua vez, o petróleo, gás e carvão mineral representam cerca de ¾ das emissões globais de gases do efeito estufa causadores das mudanças do clima³. Esse cenário de emergência climática exige pensar e transformar as raízes que mantêm a economia fóssil. A promessa do final do século de uma economia globalmente integrada que evitaria guerras se mostra insuficiente. Incapaz de garantir a paz entre os povos, novas guerras deixam nítida a frágil dependência de importações de combustíveis fósseis e consequente insegurança energética.

Organizar coletivamente para pautar saídas a essa crise de múltiplas dimensões é a tarefa dos nossos tempos. Se por um lado, o investimento em energias renováveis, modernização da rede elétrica e priorização de tecnologias de armazenamento são alternativas para superar a dependência fóssil e fortalecer a segurança energética, a estratégia deve passar pela via e robustecer a soberania nacional e popular, na confluência de sindicatos, povos e comunidades tradicionais e movimentos socioambientais. Essa redução da demanda por petróleo, gás e carvão mineral necessariamente deve ser combinada ao decréscimo ativo da oferta, por meio de programas de transição energética justa.

O Brasil é um país especialmente bem colocado para realizar uma transição energética justa, tendo em vista que seu território dispõe de imensos recursos solares, eólicos, hídricos (tanto de rios quanto de mares), de biomassa e outros. A Petrobrás que prioriza o enriquecimento de acionistas privados vai num sentido oposto ao de uma verdadeira soberania energética, nacional e popular.

Numa transição energética, o petróleo e o gás natural continuam, durante um tempo, sendo fontes importantes, ainda mais num mundo conturbado e complexo. No entanto, com a política do Estado brasileiro de leilões de muitíssimas reservas de petróleo e gás natural, grande parte das quais para transnacionais estrangeiras, e com a política do Estado e da Petrobrás de exportação de volumes crescentes de petróleo cru, o petróleo e o gás natural não estão realmente, a fundo, a serviço do país e, sobretudo, do povo trabalhador brasileiro.

Além disso e entrelaçado a isso, a Petrobrás Biocombustível (PBIO) é mantida em segundo plano, quando deveria ser uma das principais ferramentas do Sistema Petrobrás e do Brasil para a realização efetiva de uma transição energética justa. Em vez de reforçar a fundo a PBIO, inclusive incorporando essa subsidiária e seus trabalhadores, a Petrobrás e o Estado brasileiro têm preferido priorizar grandes agentes do agronegócio, que, em geral, não estão comprometidos com o meio ambiente nem com a justiça social e o país.

Outro exemplo é manter a privatização da Eletrobras, em vez de não apenas reestatizá-la, mas também de organizar uma parceria estratégica entre ela e a Petrobrás.

Energia e ambiente são indissociáveis tanto no diagnóstico da emergência climática e colapso ecológico quanto na defesa de soluções. Uma transição energética justa não virá sem grande engajamento do povo e, nesse contexto, os trabalhadores petroleiros, ambientalistas e povos e comunidades tradicionais podem desempenhar um papel fundamental. Que no próximo meio século os alicerces que sustentam a economia fóssil tornem-se ruínas, abrindo espaço para a manutenção da vida humana sobre a Terra.
Por Sindipetro-RJ e Instituto Internacional Arayara

1. Laboratório de Ciência dos Limites Planetários do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático (PIK)

2. Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus (C3S)

3. Our World in Data

Últimas Notícias