Os impactos do Acordo Mercosul-UE no Brasil

Em palestra na reunião da direção da FNP, na quinta (05/02), o pesquisador do Instituto Latino-americano de Estudos Socioeconômicos (ILAESE) Gustavo Machado analisou os impactos potenciais do acordo comercial entre o Brasil e a União Europeia (UE) sobre a estrutura produtiva nacional, passando pela geopolítica e especialmente pelo setor de energia no cenário atual.

Ele destacou que os efeitos não serão homogêneos entre os setores. No campo do petróleo, frequentemente apontado como área estratégica, o palestrante explicou que o impacto direto tende a ser relativamente limitado, pois o principal problema brasileiro não está na eficiência produtiva, mas na capacidade instalada de refino.

“O déficit que nós temos não se deve à baixa produtividade do nosso refino, mas à incapacidade da estrutura instalada”, enfatizou. Além disso, Machado lembrou que a Europa não possui excedentes relevantes de derivados que possam alterar substancialmente a matriz de abastecimento brasileira.

Mas, a análise de Gustavo Machado indica que outras áreas podem sentir efeitos mais intensos, especialmente a indústria petroquímica, segmentos manufatureiros e cadeias produtivas ligadas a bens de maior valor agregado. Para ele, o acordo entre o Brasil e a União Europeia tende a ampliar a entrada de produtos industriais europeus no Brasil e a reforçar a especialização brasileira em exportações primárias, o que pode aprofundar fragilidades já existentes na estrutura industrial do Brasil.

“O Acordo deve levar ao crescimento do setor primário, mas o petróleo será um dos menos impactados”, disse, chamando a atenção, ainda, para a necessidade de se avaliar os efeitos estruturais de médio e longo prazos.

Outro ponto destacado por Gustavo Machado foi a possível pressão do Acordo sobre o mercado interno e sobre a capacidade de expansão da indústria nacional, especialmente em setores que empregam grande quantidade de trabalhadores.

Machado também explicou que a tendência de maior entrada de capitais e mercadorias estrangeiras pode fortalecer o câmbio e estimular exportações de commodities, mas simultaneamente aumentar a dependência externa em segmentos industriais estratégicos: “O drama é a estrutura de todo o País. A tendência é ampliar a exportação de commodities e fragilizar o mercado interno.”

Segundo Machado, os impactos do Acordo não devem ser avaliados apenas pelo comércio imediato de produtos, mas principalmente por seus efeitos estruturais sobre a indústria, o emprego e a posição do Brasil na divisão internacional do trabalho.

Então, seguindo a linha do pesquisador, é preciso estarmos atentos, porque enquanto alguns setores, como biocombustíveis, podem se beneficiar de maior demanda externa, o desafio central será construir políticas industriais e energéticas capazes de evitar o aprofundamento da dependência produtiva e tecnológica.

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