O contraste foi um dos principais pontos apresentados pelo pesquisador Gustavo Machado, do Instituto Latino-Americano de Estudos Socioeconômicos (ILAESE), durante live promovida pelo Sindipetro-RJ nesta quinta-feira (27/08) sobre os resultados da Petrobrás e a proposta de Participação nos Lucros e Resultados (PLR) para 2026
A análise apresentada pelo ILAESE aponta forte expansão dos resultados financeiros e operacionais da companhia entre os primeiros semestres de 2024 e 2026; desempenho entra no centro da disputa pela PLR.
Enquanto a Petrobrás amplia receitas, produção e lucros, a parcela destinada aos trabalhadores segue trajetória oposta. Entre o primeiro semestre de 2024 e o mesmo período de 2026, o lucro líquido da companhia cresceu cerca de 300%, ao mesmo tempo em que as despesas relacionadas à massa salarial dos empregados registraram redução de 8,82%.
Segundo Machado, quando a comparação considera a inflação do período, a perda relativa da massa salarial é ainda maior. O pesquisador estima uma redução real próxima de 14% a 15%.
“O lucro líquido nesses dois anos, considerando só o primeiro semestre, cresceu 300%”, destacou Machado durante a apresentação.
O pesquisador fez uma ressalva: parte da magnitude dessa variação decorre do fato de o resultado líquido de 2024 ter sido afetado por ajustes contábeis. Ainda assim, outros indicadores apontam na mesma direção. Na comparação entre os primeiros semestres de 2024 e 2026, segundo os dados apresentados, o lucro bruto cresceu cerca de 30%, enquanto as receitas avançaram aproximadamente 22%.
Lucros sobem, massa salarial cai
A análise apresentada pelo ILAESE utiliza informações divulgadas pela própria Petrobrás em seus relatórios financeiros. De acordo com Machado, a massa salarial total estava na casa dos R$ 25 bilhões no primeiro semestre de 2024 e caiu para aproximadamente R$ 22 bilhões em 2026, em valores nominais.
Nesse cálculo estão incluídos não apenas os salários, mas também remunerações indiretas, participação nos resultados, plano de saúde e outros benefícios pagos aos trabalhadores.
O contraste levou o pesquisador a sintetizar o cenário: “Crescem todas as modalidades de lucro e de receita e cai a massa salarial dos trabalhadores”.
Os números ganham ainda mais relevância diante do desempenho recente da companhia. Na comparação entre os primeiros semestres de 2025 e 2026, a receita bruta cresceu cerca de 17%, a receita líquida avançou 21%, o lucro bruto subiu aproximadamente 34% e o lucro líquido teve expansão de 37%.
No mesmo intervalo, a massa salarial apresentou crescimento nominal de apenas 3%. Como a inflação medida pelo INPC ficou acima de 4% no período, o resultado representa, na avaliação apresentada pelo ILAESE, uma redução em termos reais.
Petrobrás pode ter registrado melhor primeiro semestre da história
Para Gustavo Machado, os números de 2026 podem representar o melhor primeiro semestre da história da Petrobrás. O pesquisador ressaltou que a comparação histórica completa exige cautela, mas afirma que os indicadores disponíveis apontam nessa direção.
Outro dado destacado foi a taxa de lucro bruto, que chegou a 117% no primeiro semestre de 2026. Segundo a série histórica utilizada pelo instituto, iniciada em 2005, é o maior percentual registrado no período.
O resultado não seria explicado apenas pela valorização do petróleo. A Petrobrás teria se beneficiado simultaneamente de três fatores: preços mais elevados do Brent, aumento da produção e redução de custos. A companhia também vem registrando sucessivos recordes operacionais, inclusive na produção do Pré-Sal. A combinação ajuda a explicar por que os lucros avançaram em ritmo superior ao dos custos.
Trabalhadores perdem participação na riqueza produzida
Outro indicador apresentado durante a entrevista reforça o contraste. Na distribuição do valor adicionado pela Petrobrás — indicador que mostra como a riqueza produzida pela empresa é repartida entre trabalhadores, governo, instituições financeiras e acionistas — a participação dos empregados caiu.
Segundo os números apresentados, a parcela destinada aos trabalhadores passou de 11% para 9%, enquanto a fatia associada ao lucro líquido avançou de 31% para 34%.
Para o ILAESE, o movimento demonstra que a redução não ocorre apenas em valores absolutos. Os trabalhadores também perderam participação relativa na riqueza gerada pela companhia.
Números pressionam debate sobre a PLR
O desempenho da Petrobrás ocorre justamente durante a negociação da PLR 2026. A proposta apresentada pela companhia mantém o pagamento considerando individualmente as empresas às quais os empregados estão vinculados, em vez de adotar o resultado consolidado de todo o Sistema Petrobrás. A empresa argumenta que existem restrições regulatórias, societárias e tributárias para alterar o modelo.
A regra da PLR também foi questionada durante a entrevista. Pelo modelo discutido, o montante considera 6,25% do lucro líquido ou 25% dos dividendos, prevalecendo o menor valor.
Machado argumenta que a inclusão dos dividendos nessa fórmula não aumenta o valor destinado aos trabalhadores. Isso porque o dividendo mínimo estatutário corresponde a 25% do lucro líquido e 25% desse montante equivale justamente a 6,25% do lucro líquido.
Na avaliação do pesquisador, a fórmula cria uma assimetria: os dividendos podem funcionar como limitador da PLR, mas não como mecanismo capaz de ampliá-la.
Sindicato critica proposta
Ainda na live, o diretor do Sindipetro-RJ e da Federação Nacional dos Petroleiros (FNP), Bruno Dantas afirmou que os resultados financeiros e operacionais apresentados entram em choque com o discurso adotado pela companhia durante as negociações.
Para o dirigente, o aumento dos lucros e da produção, acompanhado da redução de custos e da massa salarial, precisa ser considerado na discussão da participação dos trabalhadores nos resultados.
Dantas também criticou a decisão de não estabelecer uma PLR baseada no resultado de todo o Sistema Petrobrás. Segundo ele, trabalhadores de subsidiárias como a Transpetro também contribuem diretamente para os resultados consolidados da companhia.
“A gente coloca os números na mesa, não convence ninguém essa proposta da Petrobrás”, afirmou o dirigente ao defender que o debate seja ampliado para toda a categoria.
A discussão, segundo o Sindicato, ocorre em um cenário no qual os indicadores operacionais também atingem níveis elevados. Durante a entrevista foram destacados recordes de produção, aumento da utilização das refinarias e expansão da produção em campos estratégicos do Pré-Sal.
Para o Sindipetro-RJ, portanto, a discussão da PLR não pode ser dissociada de uma questão central revelada pelos números: a Petrobrás produz mais, arrecada mais e lucra mais, mas a participação dos trabalhadores na riqueza gerada pela companhia diminuiu.
Ao encerrar o debate, Gustavo Machado defendeu que os números sejam conhecidos para além das negociações salariais e da PLR. Para o pesquisador, a dimensão econômica da Petrobrás mostra que a disputa sobre a distribuição da riqueza produzida pela companhia não diz respeito apenas aos petroleiros, mas ao papel que a empresa pode desempenhar no desenvolvimento do país.
Confira a live na integra: