Setembro Amarelo: sem saber o que vai acontecer, trabalhadores de unidades da Petrobrás em privatização estão adoecendo

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Por Rosa Maria Corrêa

Desinvestimentos e falta de respeito com os empregados têm provocado doenças e piorado muito os sintomas pré-existentes. Especialista confirma que “todas essa vivências contribuem para o agravamento do sofrimento, podendo tomar um rumo patológico”

Para desenvolver reportagem sobre doenças mentais, aproveitando a campanha do Setembro Amarelo (https://sindipetro.org.br/setembro-amarelo-mutirao-em-defesa-da-vida/), o Sindipetro-RJ entrevistou cinco trabalhadores da Petrobrás Biocombustível que preferem não ser identificados.

Os mais de 100 empregados da PBIO estão enfrentando uma brusca mudança desde julho de 2020, quando a empresa foi colocada à venda, em plena pandemia, pela Petrobrás. As empresas se negam a negociar sobre a situação dos empregados e não há sequer transparência sobre quais são os planos futuros para os trabalhadores que pedem a manutenção de seus empregos, conquistados com muita luta e estudos para serem aprovados através de concurso público nacional.

Privatização afeta em grau máximo

Todos os entrevistados afirmaram sentir sintomas de doenças mentais no trabalho.

Sobre o período em que começaram a sentir esses sintomas, os períodos variam, mas se agravaram depois que a Petrobrás Biocombustível foi colocada à venda e os trabalhadores ficaram sem ter respostas sobre terem ou não o emprego garantido depois da privatização.

Entretanto, nos chamou atenção principalmente o alto peso do grau de interferência maléfica na saúde dos trabalhadores causada pela venda da estatal e pela irresponsabilidade da hierarquia privatista em não negociar com os empregados as questões que os afetam gravemente. Todos os entrevistados declararam números iguais ou muito próximos de 10, sendo 0= a privatização não colabora em nada e 10= a privatização colabora totalmente para a doença.

Conversamos com a Doutora Luciana Gomes, pesquisadora no Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana, da ENSP-FIOCRUZ, sobre os comentários dos trabalhadores entrevistados.

Má gestão empresarial

“O desmonte da Petrobrás que inclui a privatização da PBIO é o principal fator de minha ansiedade. A iminência do desemprego, o desrespeito a todos os empregados, a péssima gestão e precarização dos serviços. A enorme ansiedade também afetou meu filho.”

_Luciana, nesse caso vemos que a condução de uma gestão empresarial pode afetar também familiares e pessoas mais próximas ao trabalhador.

Luciana Gomes: A forma como vêm sendo conduzidas as ações para a privatização, em que os trabalhadores identificam que não está havendo nenhum cuidado para realocá-los em outras unidades e sequer assegurar a manutenção dos empregos, sem dúvida gera ansiedade e insegurança. Trata-se de uma situação extrema caracterizada por incerteza e desamparo. Vale ressaltar que o quadro anterior marcado pela precarização e perda crescente dos direitos trabalhistas também já propiciava o sofrimento e o adoecimento mental. O sofrimento que é gerado no trabalho acompanha o trabalhador e a trabalhadora, ele não fica no trabalho, não há como se desvencilhar facilmente dele e seguir. Consequentemente, irá repercutir em outros âmbitos da vida das pessoas, como o familiar e o social, afetando a saúde, a qualidade das relações interpessoais e a qualidade de vida. O núcleo familiar pode ser atingido reverberando na relação com cônjuge, filhos e familiares, tanto em função dos aspectos subjetivos, quanto de ordem concreta e material a partir das possíveis implicações que poderão ocorrer nas condições de vida de toda a família com o desemprego.

Futuro duvidoso

“A insegurança e a frustração de ter feito um concurso público não me deixam sossegar mais nenhum dia. Tenho a certeza de que a venda da PBIO não significa a saída da Petrobrás dos Biocombustíveis. O aquecimento global é culpa de todos, e a solução está nas mãos de todos juntos, não é uma escolha, mas sim a necessidade de energias mais limpas para nossa sobrevivência. A PBIO e seus empregados, desde quando fizemos concurso, tínhamos a noção de tamanha responsabilidade social e ambiental que temos. E por isso é nosso dever moral continuarmos a nossa missão, seja no CNPJ da PBIO ou em outro da Petrobrás. Fomos preparados e podemos atuar juntos nos negócios dos Biocombustíveis.”

“Tenho ansiedade. Faço uso de Bromazepam para conseguir dormir. É total a colaboração da PBIO na minha condição mental.”

_Para os especialistas, uma condição de frustração profunda com o fato de saber que algo pode ser feito, mas as mãos estão atadas, causa ou agrava doenças mentais pré-existentes?

Luciana Gomes: A saúde é um equilíbrio dinâmico de vários aspectos que são determinados pelas condições sócio-econômicas, culturais e ambientais gerais, condições de vida e trabalho, redes sociais e comunitárias, estilo de vida dos indivíduos, idade, sexo e fatores hereditários. Assim sendo uma situação agravada e crônica de frustração e impotência relacionada ao trabalho pode ser uma das causas que levem ao adoecimento mental ou ao agravamento de uma condição pré-existente.
Observa-se no comentário destacado que uma condição de estabilidade no emprego que deveria ter sido conquistada através da aprovação em concurso público não foi atingida, há um temor de que esse direito seja retirado. Essa situação abala a estabilidade emocional, coloca o trabalhador num estado permanente de desassossego e apreensão. Ao que tudo indica, a relação com a empresa vem se dando em desvantagem para o trabalhador, uma vez que de sua parte houve um empenho para se capacitar profissionalmente, conseguir ser aprovado e desempenhar bem o trabalho. Para além disso, há a consciência da importância e da responsabilidade social e ambiental no desenvolvimento da sua atividade. Bem como o desejo de continuar contribuindo como profissional altamente qualificado nesse processo necessário de desenvolvimento de outras matrizes energéticas para o país e para o mundo. O mínimo que se poderia esperar como contrapartida, além de condições adequadas de trabalho, é um tratamento digno e respeitoso a todos os seus trabalhadores e trabalhadoras. Eles não são meros recursos, que podem simplesmente ser descartados, antes de tudo são pessoas que devem ser reconhecidas pela importância da sua contribuição para a empresa, sem elas não haveria produção.

Crueldade requintada

“Dor, sofrimento, angústia e ansiedade aumentam ainda mais pela forma cruel de condução do processo de venda. Não há informação pela gestão da Petrobrás Biocombustível sobre a previsão de conclusão de venda ou qualquer outra informação. Diferentemente dos regramentos adotados para as outras áreas em desinvestimento, para os empregados da PBIO o desrespeito é total. Não houve oferta de negociação, nenhuma participação dos empregados no processo de venda, não houve oferta de PDV, não se abriu a possibilidade para transferência para outro ativo da Petrobrás tampouco para outras empresas do Governo Federal. Isto é, total desrespeito ao ACT vigente e ao Plano de Pessoal também em vigor.”

_Quanto um quadro de profunda indignação pode acarretar ou piorar uma doença?

Luciana Gomes: A indignação, assim como, a frustração e a impotência que foram anteriormente mencionadas, não aparecem isoladas, estão associadas a um contexto de trabalho em que as condições contribuem para a produção de sofrimento. Destaca-se na fala a decepção em relação ao descaso da empresa com o futuro dos trabalhadores, a inexistência de oferta de qualquer solução para eles, diferente do que aconteceu em outras áreas em que foi oferecida alguma opção e o desrespeito não só aos trabalhadores e como também ao que foi pactuado no ACT e no plano de pessoal. Todas essa vivências contribuem para o agravamento do sofrimento, podendo tomar um rumo patológico. Contudo vale lembrar que a saúde é uma conquista, é uma luta que se trava diariamente. De acordo com os meios e os recursos que o indivíduo e/ou o coletivo têm para lidar com isso, esse quadro poderia ser enfrentado na busca da sua superação e transformação desse sofrimento em produção de saúde.

“Tenho sintomas de Burnout desde 2018 e a privatização da PBIO colabora totalmente para esse sofrimento.”

_A síndrome de Burnout é um transtorno cada vez mais comum na nossa sociedade, caracterizada por um estresse devastador. Para quem já sofre com a doença, o que representa viver uma situação drástica como perder a estabilidade no emprego?

Luciana Gomes: A síndrome de Burnout ou síndrome do esgotamento profissional pode ser caracterizada por sintomas de exaustão emocional , estresse crônico e esgotamento físico, decorrente de situações de trabalho em que os profissionais atuam sob pressão e com responsabilidades constantes. É uma síndrome grave e que precisa ser tratada através de tratamento médico e psicológico. Então, pensar em alguém que já se encontra nesse estado ser submetido a um nível ainda maior de estresse é bastante preocupante, porque corre sério risco de agravar o quadro. Há que se ter um cuidado especial com quem já está adoecido, precisam ser preservados. Por mais que possa parecer difícil agora, as pessoas que encontram-se nessa situação precisam mais do que nunca se cuidar para restabelecerem a sua saúde.

Casos se alastram pelo Sistema Petrobrás

Vale ressaltarmos que usamos a condição dos empregados da Petrobrás Biocombustível como exemplo, mas passam pelo mesmo problema todos os trabalhadores de unidades da Petrobrás que estão em processo de privatização. “A situação é de terrível angústia e desespero frente ao processo de privatização em andamento”, diz, por exemplo, texto assinado pelos empregados da Transportadora Brasileira Gasoduto Bolívia-Brasil S/A – TBG, subsidiária da Petrobrás, que também está sendo privatizada com previsão de conclusão até dezembro deste ano.

_Numa empresa onde é aplicado o modelo de hierarquização e premiação baseado nos méritos pessoais de cada indivíduo, qual a responsabilidade que a gestão deveria ter com a saúde mental de seus empregados?

Luciana Gomes: Como seres sociais que somos, estamos sempre em relação com os outros, o trabalho é sempre dirigido ao outro e feito coletivamente, seja em maior ou menor grau. Quando se prioriza o individualismo e, consequentemente, a competitividade entre os trabalhadores, a tendência é que o ambiente torne-se hostil e as relações interpessoais sejam prejudicadas. O colega de trabalho passar a ser visto como alguém que deve ser superado, já não se pode mais contar com os demais, cada um irá se esforçar para se destacar individualmente. Com isso abalam-se as relações de confiança, cooperação e solidariedade, indispensáveis não só para um bom desempenho no trabalho, como também para o fortalecimento da saúde mental. Nesse sentido o enfraquecimento da dimensão coletiva do trabalho é prejudicial para a saúde, em especial para a saúde mental dos trabalhadores mas também para o desenvolvimento do próprio trabalho.

O Sindipetro-RJ está permanentemente na luta pela saúde dos petroleiros e tem sempre ressaltado junto à hierarquia da empresa e no judiciário a relação entre a privatização (ainda mais com a perspectiva de desemprego) e o sofrimento psicológico dos trabalhadores. Assim como a relação entre o estímulo corporativo, a competição individualista e o sofrimento psicológico.

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