A memória do Rodrigo Antônio em meio a duas datas fundamentais

Duas datas emolduram mais diretamente este texto-homenagem: 28 de abril e 1º de maio. A primeira é o Dia Mundial em Memória das Vítimas de Acidentes e Doenças de Trabalho e a segunda é o Dia das Trabalhadoras e dos Trabalhadores. Duas datas fundamentais para o povo trabalhador. Duas datas que os patrões se empenham em esconder ou, quando isso não é possível, deturpar. E os patrões fazem isso porque sabem que a consciência em relação à sua própria história coletiva e à história da relação entre patrões e trabalhadores ajuda muito na luta contra a exploração do trabalho, nos mais diversos aspectos, inclusive no mais importante de todos, que é a própria vida. Vários levantamentos e estudos mostram que os trabalhadores brasileiros não têm respeitado o direito a ir de casa para o trabalho e voltar do trabalho para casa vivos e com saúde, ou seja, o mais básico dos direitos é desrespeitado diariamente no nosso país, como evidencia o Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana, da Fiocruz (https://bit.ly/CesthFiocruz)

Há 5 anos, um trabalhador da Usina Termelétrica Barbosa Lima Sobrinho/Baixada Fluminense (UTE-BLS/BF), Rodrigo Antônio de Oliveira, morreu, no dia 22 de fevereiro de 2015, em decorrência de um “acidente” sofrido 11 dias antes numa caldeira da usina. Com mais de 70% do corpo queimado, não resistiu e faleceu no hospital, após grande sofrimento. As aspas em torno da palavra acidente são porque esse, como, aliás, os acidentes em geral, não são mero azar, mera obra do acaso, do imponderável, mas, sobretudo, de falhas e, especialmente, de negligências nos processos e ambientes de trabalho. O estadunidense Herbert William Heinrich, estudioso da segurança do trabalho, mostrou em sua famosa pirâmide, que os desvios não tratados levam a incidentes, que, não tratados, acarretam acidentes sem lesões, que, se as causas não forem resolvidas, geram acidentes com lesões e assim sucessivamente, até os acidentes fatais. Entre outros problemas, uma tubulação feita com material menos resistente à corrosão, perdeu espessura e seção transversal para vazão sob pressão muito elevada, sendo que a exigência de produzir energia mesmo nessas circunstâncias
desembocaram no acidente fatal; situação agravada pela demora para que Rodrigo fosse levado ao hospital. Um fio condutor foi a busca do lucro rápido, desde a Skanska, que construiu a UTE-BF, até a Petrobrás.

Pelo sindicato, apoiamos a família de Rodrigo Antônio e temos pautado sempre a necessidade da Petrobrás organizar o trabalho tendo como base a segurança e a saúde dos trabalhadores. Especificamente na usina, um dos aspectos que, na nossa avaliação (e na de muitos trabalhadores locais), é importante em termos de segurança é a quantidade de trabalhadores. O que a hierarquia da Petrobrás chama, na área operacional, de arquétipo é, em síntese, a quantidade de empregados que cada setor deve ter. Um grave problema é que a hierarquia privatista da empresa, que prepara demissões em massa, estabeleceu um arquétipo muito reduzido, (in)justamente, entre outros motivos, para “justificar” tais demissões. A redução do efetivo na usina ao longo dos anos, o fato de que não é incomum ter apenas dois ou até mesmo um(a) operador(a) no turno numa das duas usinas que compõem a UTE-BLS/BF, colocando concretamente a situação de trabalhadores atuarem sozinhos na área industrial, aumentando demais o risco, além de sobrecarregar na elaboração das permissões de trabalho (PTs), dificultando uma análise mais aprofundada dos riscos envolvidos, são fatores de risco. Estamos realizando uma enquete justamente sobre isso e os operadores que ainda não responderam podem fazê-lo, até 10 de maio, no endereço https://bit.ly/EnqueteOp.

A cada ano, fazemos atividades em memória do ser humano e trabalhador, Rodrigo Antônio, infelizmente uma das muitas vítimas de acidentes de trabalho, homenageadas em 28 de abril. Num dos atos, em 2018, lemos uma carta escrita por uma das irmãs de Rodrigo, chamada Simone, e nomeamos simbolicamente a entrada da usina como Praça Rodrigo Antônio de Oliveira (https://bit.ly/PracaUsina) . Neste ano, precisamos adiar no contexto da greve petroleira, em fevereiro, e pouco depois começou a quarentena por causa da pandemia do coronavírus, em torno da qual também temos atuado para proteger os trabalhadores, apesar dos obstáculos colocados pela cúpula da empresa. Mas, além de lembrá-lo com freqüência, dedicamos este texto à sua memória. E apresentamos, a seguir, mais uma carta muito generosa que Laís, sobrinha de Rodrigo, escreveu em nome da família (e do próprio tio):

“Caros amigos funcionários da UTE-BLS/BF,

Sinto saudade de vocês. Sinto muita saudade do que vivi e também do que não tive tempo de viver, meus planos, meus sonhos. Sinto saudade da minha família, e da minha mãe. Sinto falta das risadas e das conversas que tivemos aqui nos dias de trabalho. E sinto isso, especialmente, porque eu amava o que fazia aqui e amava fazer isso com vocês.

Estamos distantes agora, mas ainda juntos no desejo de que o trabalho seja um lugar de vida e não de morte.

Quando passamos por esses portões prestes a começar cada turno de trabalho, sabemos dos riscos que corremos. Sabemos a responsabilidade que carregamos ao lidar com máquinas e equipamentos tão perigosos.

A energia possibilita o funcionamento de escolas, hospitais e tantos outros serviços essenciais para a sociedade e temos orgulho de fazer parte disso. Uma enorme responsabilidade é confiada aos trabalhadores de usinas termoelétricas.

Em troca, não queremos palavras vazias que encorajam a produtividade do trabalho pedindo que demos o máximo  enquanto a nós não é oferecido o mínimo: nosso direito à saúde e à vida. Queremos condições seguras de trabalho. Queremos um empregador que não pense em nós como máquinas que possam ser substituídas quando não pudermos aguentar a pressão que o trabalho exerce sobre nós, seja ela física ou mental.

Que esse dia cumpra seu papel na conscientização sobre a importância de investir na segurança e saúde do trabalhador. Se a minha partida for capaz de fortalecer essa luta, ela não terá sido em vão.

Eu espero que lembrem de mim, com meu uniforme e o meu crachá, feliz por ter sido parte desse time.

Rodrigo Antônio”.

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