Terceirização: a quem interessa?

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Iniciamos este texto deixando claro que somos contra a terceirização, mas defendemos o trabalhador terceirizado. A terceirização tem servido mais à precarização dos trabalhadores, sejam próprios ou terceirizados, do que à racionalidade empresarial da especialização. Portanto, à luz da lógica daqueles que a defendem, seria necessária uma justificativa plausível para sua implantação.

Comecemos por um exemplo. Imaginemos que uma determinada empresa, cuja atuação seja no setor de logística de combustíveis, necessite colocar um satélite em órbita do planeta Terra, para uma demanda qualquer. Uma forma de se fazer isso é lançar o satélite via um foguete, uma atividade que obviamente não é do cotidiano desta suposta empresa. Sendo assim, é natural que esta empresa cogite contratar os serviços de outra empresa, especialista
em lançamento de foguetes, pois esta é uma atividade que não faz parte do cotidiano de uma empresa do setor de logística de combustíveis. Este exemplo demostra um motivo justo para que ocorra a terceirização.

Agora, imaginemos outro tipo de atividade. Vamos os focar numa equipe completa de manutenção, incluindo mecânicos, caldeireiros, eletricistas e instrumentistas. Para fazer nossa análise, vamos partir do mesmo exemplo anterior, uma empresa do setor logístico de combustíveis, mais especificamente, de um terminal de armazenamento e distribuição de derivados de petróleo. Este terminal, conta com um número expressivo de equipamentos, tais como dutos, válvulas, tanques, bombas, etc., necessários para que seja possível a realização das atividades desejadas. É certo que estes equipamentos necessitam de manutenções preventivas e corretivas praticamente todos os dias, e assim, consequentemente, é necessário que o terminal tenha à sua disposição as equipes de manutenção para acompanhar de maneira contínua o bom funcionamento destes equipamentos.

Agora, vamos analisar se faz algum sentido que esta empresa, do setor logístico, terceirize estes serviços de manutenção.

Um dos motivos mais utilizados para justificar a terceirização é que seria mais barato contratar trabalhadores por esta modalidade. Além da sacanagem que é precarizar um trabalhador e pagar um salário menor do que deveria ser, vamos nos aprofundar um pouco mais neste tema.

Imaginemos um cenário em que um trabalhador de manutenção deveria ganhar R$ 2.000,00 mensais, sendo contratado diretamente pela empresa de logística, a qual passaremos a chamar de empresa A. A empresa A, no entanto, quer economizar em cima deste trabalhador, então faz a contratação indiretamente via a empresa B. A empresa A paga R$ 1.500,00 mensais para a empresa B. Chamo atenção neste ponto: os R$ 1.500,00 mensais não caem na conta do trabalhador, e sim na conta da empresa B. A empresa B, por sua vez, possui diversos gastos administrativos para manter o funcionamento da empresa, como por exemplo custo com equipe de RH, custo com equipe de contabilidade, entre outros. Assim, dos R$ 1.500,00 mensais que recebe da empresa A, desconta todos estes custos, numa espécie de “conta de padaria” que totaliza R$ 100,00. Restam, portanto, R$ 1.400,00 mensais.

Nesta história, existe um grande detalhe que é justamente a motivação da terceirização. Como a empresa B, citada no
exemplo, geralmente não é uma empresa de caráter filantrópico, o seu principal objetivo (se não o único) é lucrar. E para ter lucro, uma parte dos R$ 1.400,00 mensais ainda é retirada deste bolo. Assim, o dono da empresa B, que pode ser chamado de Capitalista, segundo a definição utilizada por Karl Marx, retira, por exemplo, mais R$ 100,00 deste bolo. Resumindo, dos R$ 1.500,00 mensais que a empresa A paga para ter o serviço de manutenção, apenas R$ 1.300,00 caem na conta do trabalhador.

Agora, imaginemos que a empresa A necessite de 100 trabalhadores para a equipe de manutenção do terminal. Retirando R$ 100,00 por cada trabalhador do contrato de manutenção, o Capitalista consegue embolsar, somente com este contrato, R$ 10.000,00 mensais, lucro certo através da exploração do trabalho dos outros.

Como as “contas da padaria” também não sofrem qualquer fiscalização, o Capitalista ainda pode retirar dali mais um pedaço para o seu lucro total.

No final das contas, faltam reais no pagamento do trabalhador terceirizado, que além de receber um pagamento muito abaixo da função desempenhada, sofre por não ter direitos trabalhistas, demitido a qualquer tempo e enfrenta assédio de gerentes tanto os da empresa A quanto os da empresa B. E quando a empresa B se vê em dificuldades,
fecha as portas e abre uma outra, a C, para continuar usufruindo de lucro através da exploração de mão de obra necessitada de emprego para por comida no prato.

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