UTE-BLS/BF: seis anos de uma morte que poderia ser evitada

Por Antony Devalle

Sindicato relembra tragédia em termelétrica motivada pela precarização, não podemos esquecer…

Há seis anos, um petroleiro, Rodrigo Antônio de Oliveira, que trabalhava como operador na Usina Termelétrica
Barbosa Lima Sobrinho/Baixada Fluminense (UTE-BLS/BF), situada em localização muito estratégica no país, morreu, com apenas 42 anos. Foi no dia 22 de fevereiro de 2015, onze dias após um “acidente” sofrido numa caldeira da parte BF da termoelétrica. Com mais de 70% do corpo queimado, o Rodrigo acabou sucumbindo, com grande sofrimento, sempre expressando, mesmo nesse quadro, preocupação com o futuro da sua família. Como escrevemos numa placa com o seu nome, a qual propomos colocar na entrada da usina, ele era um trabalhador qualificado, que foi vítima da precarização em termos de segurança e saúde no trabalho, num contexto em que o lucro vale mais do que a vida. O terrível sofrimento de Rodrigo continua ecoando na sua família, que, apesar do imenso esforço para superar a sua morte precoce, ficou dilacerada.

Em parte, o “acidente” aconteceu porque uma tubulação foi construída num material de especificação inferior à que deveria atender e, corroída, ficou entupida, aumentando demais a pressão na caldeira. Lembremos que a UTE-BF foi construída pela transnacional sueca Skanska, como ampliação da planta já existente e incorporada pela Petrobras alguns antes antes. A UTE-BLS, nome dado pela Petrobras à Sociedade Fluminense de Energia (SFE)/Eletrobolt, pertencia antes à transnacional estadunidense Enron. Mesmo diante de alertas de trabalhadores em relação a esse e outros problemas estruturais, a hierarquia da empresa não os corrigiu. Outro grave problema foi a lógica da geração de energia a toque de caixa, buscando o lucro rápido. Por isso, colocamos aspas em torno da palavra acidente. Afinal, em geral, quando as pessoas pensam num acidente, imaginam uma situação fruto do acaso, mas, como os próprios estudos de segurança do trabalho mostram, ainda que o imponderável possa estar presente, os acidentes resultam sobretudo de negligências, principalmente negligências estruturais e operacionais. Se os desvios não são corrigidos, se os incidentes não são tratados, se os acidentes de pequeno e de médio porte não são levados realmente
a sério, se chegará, mais cedo ou mais tarde, em acidentes de grandes proporções, inclusive fatais.

Para nós os trabalhadores mortos têm nome e história!

É todo um modelo de organização do trabalho, tanto em seus aspectos materiais quanto administrativos e
psicológicos, que facilita imensamente a ocorrência de acidentes e de mortes de trabalhadores em decorrência
especificamente do seu trabalho. Quando uma pessoa é assassinada por uma arma de fogo é comum a mídia mais
diretamente mercantil dar destaque, ainda que essa mídia busque, na média, naturalizar o assassinato de
pobres. Quando uma pessoa morre em decorrência do trabalho é muito raro vermos nessa mesma mídia alguma
comoção. Na maior parte das vezes, os trabalhadores mortos em função do trabalho não passam de estatísticas
ou são mesmo mais diretamente invisibilizados nesse mídia, defensora dos seus próprios interesses patronais.
Para nós não! Entendemos que cada trabalhador morto pela organização do trabalho patronal tem nome e história. A memória é fundamental para a luta dos trabalhadores. Luta que, em última instância (e, muitas vezes, em primeira
instância), é pelo direito a ir de casa para o trabalho e voltar do trabalho para casa vivo e com saúde.
Atualmente, com o teletrabalho, a casa acaba se tornando mais diretamente uma extensão do ambiente de
trabalho; portanto a luta inclui também, de forma direta, manter a casa como lar seguro, mesmo que seja
local de trabalho “externo”.

A redução do efetivo é um grande fator de risco

No contexto da UTE-BLS/BF, a redução do efetivo tem aumentado cada vez mais o risco para os trabalhadores e
também para as instalações da empresa, para o meio ambiente e para a população do entorno. Desde 2015 pelo menos, o efetivo da usina vem diminuindo. Na operação, vários saíram, inclusive com Planos de Demissão “Voluntária” (as aspas são porque o privatismo muitas vezes força as pessoas a desejar sair) nos dois últimos anos.
E não estão sendo repostos. Isso tem sido abordado na Comissão Interna de Prevenção de Acidentes ( CIPA), tanto
pelo Sindicato quanto por uma parcela dos trabalhadores, assim como em diversas outras instâncias pelo
Sindipetro-RJ. É um dos principais pontos da pauta de reivindicações. Com a redução do efetivo, cada trabalhador
remanescente fica sobrecarregado, o que dificulta a atenção em muitas tarefas, dentre as quais a elaboração
de Permissões de Trabalho (PTs), fundamentais para os trabalhos na área industrial. Alguns acidentes, ainda que
sem vítimas fatais, têm ocorrido na unidade, e, como nos lembram os estudos de segurança do trabalho, precisam ser profundamente tratados se não quisermos que volte a acontecer um acidente fatal. O Sindicato insiste que parte muito importante do que precisa ser levado em consideração é o risco majorado pela redução do efetivo. Essa redução vem sendo efetuada em toda a Petrobras e deriva do avanço avassalador da privatização.

Essa luta do Sindicato é reconhecida pela família de Rodrigo Antônio, que busca, a cada dia, transformar o
luto em luta. É com uma carta da família dele que terminamos este texto, com o compromisso de continuarmos
nessa luta.

Eis a carta, de 22 de fevereiro deste ano:

Hoje, completamos seis anos sem o Rodrigo. É redundante dizer o quanto sentimos sua falta e o quanto dói essa
separação tão precoce. A cada ano, a tristeza cede um pouco mais de lugar à saudade, mas ainda é difícil
acreditar no que aconteceu. É difícil acreditar que por mais 365 dias ele não voltou para casa, não viu sua
família, não brincou com a cachorrinha, não compartilhou notícias boas ou momentos difíceis com seus entes
queridos. E é difícil demais acreditar que isso vai se repetir todos os anos. Essa dor não cabe em
palavras, então, queremos nos concentrar em agradecer a todos os amigos e colegas de trabalho que pensam
no Rodrigo. Queremos agradecer aos membros do sindicato que mantêm viva a memória do Rodrigo e que fazem
dessa história triste um motivo de luta pelos direitos dos trabalhadores da usina. Queremos agradecer aos
que fazem do trabalho um ambiente de vida e não de morte, que contribuem para a segurança dos
funcionários, que se preocupam em garantir que todos voltem aos seus respectivos lares em boas
condições. O que aconteceu com o Rodrigo não pode se repetir.

Com muita saudade,

Família do Rodrigo

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