16 DIAS QUE ABALARAM A PETROBRÁS

O ano de 2025 tem o signo da luta! Trouxe à tona toda a pauta e a insatisfação latente dos petroleiros e petroleiras. Começou com a eclosão das greves que tiveram como carro chefe o Teletrabalho e o calote da PLR, passou pela Vigília contra os PEDs e culminou na recente e maior greve das últimas décadas, encerrada na virada para 2026.

Seja pela obsessão em cumprir as metas ditadas pelo capital, seja pela arrogância característica da patronal, a alta administração não enxergou as bolhas insurgentes que chegavam à superfície. Não acreditou que a greve viesse e muito menos com tamanha adesão e disposição e acabou por jogar a empresa em 16 dias de conflitos e prejuízos.

Quem não estava no sindicato dia 30 e não pôde debater as mudanças de cenário que ocorreram da manhã para a noite, provavelmente ficou confuso e frustrado com a decisão da assembleia pelo encerramento da greve e a assinatura do acordo. 

Dizia o filósofo que a maioria dos acontecimentos são indizíveis, mas queremos nos arriscar a trazer essa reflexão sobre tal feito histórico que acabamos de protagonizar.

Uma greve espetacular, que não conquistou tudo o que poderia, mas freou ataques, evidenciou maldades e fortaleceu a categoria para as próximas batalhas

A greve arrancou algumas cláusulas com ganhos financeiros – como o abono, o vale mercado, o reembolso parcial de passagens, alguma melhoria no HETT – e evitou ataques maiores a setores como o SMS (diminuiu o tamanho do POB usado como linha de corte dos técnicos de enfermagem e evitou o aumento da carga horária de médicos e dentistas atuais), entre outras questões.

Por outro lado, não tivemos reposição salarial, foi ínfimo o “ganho real” (negado aos Aposentados!), não avançamos no Teletrabalho e saímos com não mais que “compromissos” e “GTs” sobre PEDs, Plano de Cargos e outros temas. Retrocessos foram impostos, como a questão dos custos da APS, o aumento diferenciado para os aposentados, a supressão de folgas – temas que manteremos vivos em nossas lutas.

Do que ninguém tem dúvida, entretanto – e é fundamental compreendermos a importância disso – é que que lutamos até o último minuto e não recuamos diante das ameaças e intransigência do RH. 

Disputamos até o fim pelo fortalecimento da greve e só recuamos quando quase todos os sindicatos já haviam aprovado o acordo e avançava a judicialização. Concluímos que seria um risco muito alto seguirmos sozinhos no movimento.

Menos ACT, mais acionistas…

A greve teve como estopim os ataques diretos e o ACT e como pano de fundo a política de austeridade imposta pelo governo e alta administração para beneficiar acionistas bilionários e outros interesses em ano eleitoral.

Foi parte de uma mobilização permanente que enfrentou os interesses do imperialismo na sua busca em se apropriar da renda petroleira e do patrimônio do povo através da escandalosa distribuição de dividendos, dos leilões de reservas, de privatizações e, de novo, da imposição de cortes de direitos e remuneração via ACT.

Esse embate aprofundou o descrédito na gestão Magda e abalou a esperança de muitos de que neste governo, além de estancar a privatização, haveria mudanças estruturais ou pelo menos avanços significativos e, definitivamente, a truculência e a má fé não ocupariam o lugar da escuta e do diálogo de verdade com os trabalhadores e seus representantes.

Não se tratava só do ACT, tocamos na ferida que somos nós que produzimos as riquezas e podemos impor uma distribuição diferente da que sonham os patrões e recolocar a Petrobrás como instrumento voltado ao desenvolvimento do país e a serviço do povo brasileiro.

e cuidado com certas pessoas!

As imposições unilaterais ignoraram o diálogo e atropelaram conquistas. Somado ao autoritarismo, as constantes e desrespeitosas enrolações e “pegadinhas” do RH foram minando a confiança dos trabalhadores na empresa, desnudando a estratégia da gestão Magda de priorizar o “aperto de cintos” dos trabalhadores para garantir os lucros estratosféricos dos acionistas.

Dezembro: entra em cena a mais forte e importante greve petroleira das últimas décadas

Uma greve que colocou em cheque a agenda liberal de austeridade, impedindo que o governo e a gestão aprofundassem o “aperto de cintos” e desmascarando a política da gestão, traduzida no lema do “Menos Acionistas, Mais ACT”. 

É preciso enfatizar que este governo não foi sequer capaz de repor a perda abaixo da inflação de Temer e Bolsonaro e não se dignou a garantir a ultratividade e a validade por um ano do Acordo – coisas que inclusive não significariam qualquer desembolso para a empresa. 

Sem falar que segue a farra dos dividendos e os leilões de petróleo, a entrega às multinacionais, inclusive em áreas sensíveis, na contramão da transição energética.

E para os anais da história, o mais grave, mais um feito antidemocrático: a opção pelo dissídio no TST,  que apela para uma prática que remonta FHC.

O protagonismo do Sindipetro-RJ no processo da greve foi decisivo para os rumos da mobilização nacional. Ao manter a coerência tática e a independência política, o RJ ajudou a pavimentar o caminho, em meio às incertezas das negociações e às direções vacilantes. 

Nossa greve foi se desenrolando numa crescente, com o Offshore, Boaventura e Terminais da Transpetro na vanguarda, e puxando setores importantes como a Operação, Planta Piloto e outros setores do CENPES, uma camada de ativistas dos prédios ADM e da PBio. 

Importante ressaltar a Vigília dos Aposentados, essa parte discriminada da nossa categoria, que vê a cada ACT acumularem-se as perdas históricas e que se insurge contra os PEDS, pela cobrança da dívida que a Petrobras tem para com o plano PPSP 1/BD e contra a migração, que se iniciou antes da greve e manteve-se durante o movimento sob sol e sob chuva. 

Orgulhamo-nos também da condução democrática e participativa que tivemos durante toda a greve, com plenárias quase diárias de grevistas. Em que pese alguma dificuldade para quem estava em outras cidades ou pontos mais distantes, foi um importante exercício de democracia operária e que ajudou a sentir o pulso da greve, analisar coletivamente nossas possibilidades e quais os próximos passos.  

Tivemos apoio de diversas entidades nacionais e internacionais que se pronunciaram e, especialmente, da CSP-CONLUTAS, que teve participação ativa em todos os dias e nos principais momentos da greve e com quem sabemos que poderemos seguir contando.

Atravessamos longos dias de calor insuportável, que começavam nas comissões de convencimento, se consolidavam nas plenárias de grevistas e terminavam com as divisões de equipes para a luta do dia seguinte, sempre atentos ao cenário nacional e os rumos do movimento. Foram muitos atrasos, comissões de convencimento, a Vigília dos Aposentados, atos nas unidades e passeatas nas ruas – incluindo churrasco de grevistas e ceia natalina de tantos que ficaram longe de casa.

Pecamos ao não conseguir jogar mais pra fora nossa luta, disputar a sociedade, ganhar o conjunto dos trabalhadores para defesa de nosso patrimônio e para as condições de trabalho e de vida da nossa classe, unificar com outras categorias em luta, a exemplo das ações que tivemos junto aos ecetistas.

A greve impôs uma forte pressão política e financeira sobre a empresa. Com a queda na produção de milhares de barris diários, o movimento atingiu o coração da produção: o Pré-Sal. Responsável pela maior fatia da extração nacional, a redução nestas plataformas gerou um impacto direto e imediato em toda a cadeia produtiva, ao contrário do que afirmou publicamente a Petrobrás (mentiu para os acionistas ou para os juízes?).

Ao perceber a força da paralisação, desde o início a Petrobrás recorreu ao Judiciário e se sucedeu uma guerra de liminares para solapar a mobilização, especialmente no Boaventura. Em uma medida considerada autoritária e antissindical pelos trabalhadores, o TST (Tribunal Superior do Trabalho) determinou a manutenção de 80% do efetivo em atividade. Atuamos também neste front, junto à Procuradoria Geral do Trabalho e ao TST, resultado na determinação do Tribunal para que a Petrobrás apresentasse a listagem do efetivo, ordem que ela simplesmente desrespeitou para bases do RJ, assim como se recusou à mediação na PGT.

Foi uma greve imensa. Quebramos o tabu de que certos setores não podem parar. O que antes era visto como intransponível tornou-se chão conquistado pela organização e pela unidade na luta dos trabalhadores.

O resultado foi um amadurecimento histórico na organização da categoria, que soube identificar o jogo de cena.  O desenrolar do movimento paredista derrubou a máscara da direção da FUP. Não é pouca coisa começar o desmonte do movimento no auge dele, como fez a FUP, quando, na véspera de Natal, resolveu entregar a luta no primeiro round. Como explicar que a FUP começa a votar o fim da greve com setores ainda aderindo ao movimento e justo quando a produção do Pré-Sal começa sufocar financeiramente a empresa? 

No auge do movimento, veio a indicação de saída da greve. E foi aí que a história petroleira registrou a base da FUP atropelando sua própria direção, dado o abismo entre a disposição de luta da categoria e o caminho colaboracionista da cúpula. 

Apesar da “operação desmonte” iniciada pela FUP, a greve se manteve e ultrapassou o dia 23/12, com as bases do Sindipetro RJ junto com os outros sindicatos da FNP (LP, Amazônia, AL/SE) e também sindicatos da FUP (NF, ES, CE/PI, MG e Caxias).

Acreditamos que o subproduto mais importante desta greve é a confirmação que a unidade pela base para lutar e a independência de classes, princípios defendidos pela atual gestão do Sindipetro RJ devem continuar sendo nosso norte. Coisa reconhecida por todos que lutaram e que inclusive se refletiu nas dezenas e dezenas de sindicalizações do período.

Era possível avançar. A Petrobrás estava encurralada. A pressão financeira sobre o Pré-Sal era o nosso maior trunfo. Juridicamente, estávamos no melhor momento para uma mediação que impedisse a supressão de folgas e garantisse direitos.

Quem não estava no sindicato durante o dia realmente pode ter ficado frustrado ou não ter entendido a opção de encerrar a greve. De manhã à noite, centenas de grevistas reunidos traçando os cenários e as soluções possíveis. O primeiro indicativo, sem tremer a mão, era que a greve continuasse. Mas os fatos supervenientes na manhã daquela terça mudaram a situação. 

O NF faz nova assembleia e sai da greve e AL/SE também aprova o acordo. No LP, pressionados pelas liminares obtidas pela Petrobrás, setores significativos já retornavam ao trabalho. Perdemos a força da greve em parte importante da produção.

Ficou cada vez mais difícil calcularmos um passo que não fosse inócuo e/ou demasiado arriscado para os grevistas da base do RJ. A assembleia então entendeu que, nestas condições, não seria o caso de levar o Sindipetro RJ sozinho adiante.

Derrotar a direção da FUP é estratégico para unificar a luta da categoria

Ato falho estampado no site da Federação governista, a Petrobrás pôde contar com o “empenho da FUP para terminar a greve”, quando a direção do Sindipetro NF convocou uma assembleia para aceitar a mesma proposta que havia sido rejeitada dias antes, sem nenhuma mudança concreta no cenário nacional e com a greve a todo vapor.

A greve provou – pela positiva e pela negativa – que a unidade da categoria para lutar só se consegue derrotando a direção da FUP. 

Só quem pode, em última instância, nacional e sustentavelmente, cumprir esta missão, é a base da categoria mobilizada.

Seja com 1 ou 2 federações, com 14 ou 18 sindicatos, existem muitas formas para o sindicalismo de conciliação impor-se à “aritmética de ocasião”. 

Trata-se, portanto, de desmascarar e derrotar este projeto em todas as instâncias e ambientes, de apresentar uma alternativa de direção. O Sindipetro RJ e a FNP também provaram, nesta greve, que é possível construir essa alternativa, com independência de classe e trabalhadores mobilizados.

Exagerar conquistas e ignorar limites desarma a categoria 

Não concordamos com aqueles que – para passar pano pro patrão ou se autovalorizar – de uma hora pra outra mudam de opinião e passam a embelezar o ACT, fazem um “balanço” de dar orgulho ao RH, abstraem a correlação de forças estabelecida e, ao invés de explicar por que a greve foi desmontada no seu auge, destacam o “intenso processo de negociação conduzido pelas lideranças sindicais” (sic), apesar de todo mundo ter acompanhado a enrolação, intransigência e judicialização por parte da empresa.

Não vencemos como gostaríamos, mas forjamos uma força e unidade na luta que a Petrobrás agora teme. A experiência dessa luta e o acúmulo de forças é o nosso maior troféu.

Este orgulho talvez não seja o sentimento predominante agora e muitos não vislumbrem uma vitória próxima. Sejamos pacientes conosco mesmos e estejamos abertos às reflexões apontadas.

Recuar no momento certo não é derrota, é preservar a categoria para os próximos embates que virão. Saímos desse processo com um salto organizativo histórico, uma unidade pela base memorável e de cabeça erguida.

Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas. Sun Tzu

Sabemos quem é a direção da Petrobrás; quem são seus aliados no movimento sindical;  com quais sindipetros, federação e central sindical podemos contar; a força que temos quando nos movimentamos.

Seguiremos firmes em defesa de nossas pautas, de uma Petrobrás 100% estatal e pública e contribuindo para o exercício de uma ação sindical classista, com democracia operária, independência de classe, internacionalismo e contribuindo para a construção de alternativas, com esses perfil, para o movimento de massas brasileiro!

 

 

Últimas Notícias