O país mais ansioso do mundo: Janeiro Branco para além dos discursos oficiais

Vivemos um cenário contraditório. Nunca se falou tanto em terapia, meditação e “autocuidado”. As farmácias estão em cada esquina e o consumo de antidepressivos e ansiolíticos bate recordes. No entanto, os números não mentem: segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o país mais ansioso do mundo e o líder em depressão na América Latina.

Mas como podemos estar mais doentes se “nos cuidamos” mais? Essa resposta é incômoda para os patrões: o consultório do psicólogo, quando acessível, não consegue anular a pressão do mundo do trabalho, a incerteza do trabalhador precarizado ou o peso do racismo, machismo e LGBTfobia que estruturam a nossa sociedade.

O ano de 2025 trouxe mais um alerta para saúde pública: pela primeira vez, o número de brasileiros afastados do trabalho por questões de saúde mental ultrapassou a marca de meio milhão por ano, segundo dados consolidados de 2025.

O discurso do sistema tenta nos convencer de que o bem-estar depende apenas de “boas práticas de vida”. É um bombardeio de wellness, fitness, mindfulness ao mesmo tempo em que se vende uma ideia individualizante que a sua ansiedade e depressão é fruto de uma falha sua ou de má gestão do seu tempo, escondendo que, na verdade, ela é resultado de um sistema que não coloca de verdade as pessoas em primeiro lugar. Não é possível pensar a saúde mental separada das condições dos trabalhadores, e essas condições são cada vez mais de exaustão, precarização, falta de tempo livre e insegurança social.

A saúde mental na pauta petroleira

A produção recorde de energia no Brasil não pode mais ser sustentada pelo esgotamento mental de quem opera as engrenagens da maior empresa do país: esse também é um desdobramento da campanha da nossa greve “+ ACT, – Acionistas”. A saúde mental dos trabalhadores é uma pauta de luta constante no cenário atual da categoria.

Existe por parte do sindicato a constante denúncia que o modelo de gestão focado em metas agressivas tem gerado um rastro de adoecimento, e a exigência que o bem-estar psíquico seja tratado com o mesmo rigor e seriedade que a segurança das instalações físicas.

O regramento do teletrabalho é uma pauta importante de saúde mental, considerando a redução do tempo de deslocamento e a maior presença junto à família dentre fatores de humanização da rotina de trabalho.

Falamos sempre também sobre a necessidade de reformulação do Atestado de Saúde Ocupacional (ASO). A FNP defende a inclusão obrigatória da avaliação psicológica no exame periódico, garantindo que o sofrimento mental seja detectado antes que se agrave. Para isso, a proposta enviada à companhia exige que o agendamento de consultas psicológicas ocorra em, no máximo, 48 horas após a solicitação do empregado. Além disso, lutamos pela total independência do SMS, que hoje muitas vezes se vê subordinada às gerências de produção. É essencial que a SMS tenha autonomia real para atuar de forma plena, sem sofrer retaliações ou pressões de gerências. A exigência de equipes de saúde em todas as unidades segue sendo também uma bandeira essencial para uma política abrangente de saúde mental.

Outra luta fundamental da trabalhadora brasileira hoje e muito presente em petroleiros é a garantia do direito à desconexão, questão muito agravada no pós-pandemia e ainda sentida na pele.

No Offshore, a saúde mental deixa de ser uma abstração clínica para se tornar um reflexo direto das condições materiais de existência a bordo. É preciso considerar e combater as consequências do isolamento desse tipo de trabalho. O adoecimento psíquico da categoria petroleira não nasce no vácuo, é resultado também, por exemplo, de unidades operando com efetivo mínimo, onde a sobrecarga de tarefas anula o tempo de recuperação necessário. Outra questão é o falso sobreaviso, que mantém o petroleiro em estado de alerta constante, dentre tantas outras pautas que foram debate durante a greve e seguem necessárias. A bandeira da implementação da escala 14×21 para todos, próprios e terceirizados, é um imperativo de segurança e dignidade, pois garante o tempo de desconexão real e o convívio social indispensáveis para  blindar a saúde mental do petroleiro contra o desgaste extremo do confinamento.

O assédio moral segue sendo uma imensa fonte de sofrimento humano nas empresas, e a  Petrobrás não é diferente. O assédio não é um problema de casos isolados, é também um método de gestão ligado à cultura do medo e na estratégia de lucro acima das vidas que adoece o trabalhador. 

Por fim, mas não menos importante, é preciso lutar pelo fim da escala 6×1 no Sistema Petrobras e no Brasil. A superexploração age como um motor de adoecimento mental e é inadmissível que uma gigante como a Petrobrás não combata esse regime de trabalho.

A luta também cura

Quando as doenças são de massas, o diagnóstico não pode ser um fenômeno particular ou “defeito de fabricação” do indivíduo. Se focarmos no sintoma e no remédio, isolamos as circunstâncias da vida concreta do trabalhador nessa sociedade. 

Dessa maneira também é importante que o debate sobre saúde mental saia cada vez mais das quatro paredes dos consultórios e ocupe as assembleias, as ruas e as mesas de negociação. Cuidar da mente é também lutar por menos horas de trabalho, por melhores salários e pelo combate às opressões. Se o sistema nos adoece em conjunto, é também no coletivo que podemos forjar a cura e a força para transformar essa realidade.  

 

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