Nas últimas semanas, o Brasil testemunhou um despertar histórico das ruas. Perante a ameaça de retrocesso brutal com a volta do bolsonarismo, fomos reanimados pelo grito rebelde da juventude
Como uma maré indomável, as manifestações contra a extrema direita transbordaram pelas avenidas e ruas das cidades do Brasil. Enfrentamos a ditadura invisível dos algoritmos, a turma do Kássio Nunes (KN) no TSE, o boicote das prefeituras bolsonaristas e o deplorável papel dos conglomerados da imprensa. E, contra todas as probabilidades, transformamos o impossível na mais grandiosa das viradas.
Foi a mobilização popular que virou o jogo no segundo turno e garantiu a reeleição de Lula contra o bolsonarismo. Essa força nas ruas foi o oposto da campanha oficial no primeiro turno — que não empolgou nem engajou ao insistir apenas na exaltação do passado. Ao priorizar o legado de mandatos anteriores em vez de propor mudanças estruturais, a campanha oficial não dialogou com as urgências da classe trabalhadora, como o custo de vida, o desemprego e o caos urbano. A esperança dançou nas ruas; não brotou de palanques nem de gabinetes.
Formamos no segundo turno um verdadeiro exército de solidariedade, com frotas de caronas buscando pessoas no ponto de ônibus, vilas inteiras andando diversos quilômetros a pé para ir votar, brasileiros nos aeroportos tentando atravessar cidades e até países, filhos carregando os pais no colo, PcD tendo seu direito garantido com ajuda de companheiros. O povo brasileiro ensinou vida, e o efeito disso foi a virada de votos, o rasgo das abstenções do primeiro turno e a espetacular derrota do bolsonarismo no segundo turno.
A juventude e o povo provaram que não existe imperialismo, big techs e milícias o suficiente para esmagar a força do povo quando ele se organiza e luta. A histórica aprovação do fim da escala 6×1 foi um sonho que a luta transformou em realidade, e foi com essa mesma chama que fomos às ruas defender a nossa soberania, os nossos direitos sociais e a vida de nossas mulheres, negros, indígenas e pessoas LGBT+.
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Nessa batalha histórica, o papel dos petroleiros em geral e do Sindipetro-RJ foi muito importante. Com objetivo traçado de virar votos no segundo turno nas bases petroleiras e para além delas, fomos a fundo buscar os votos nos setores da classe trabalhadora críticos ao atual governo, em especial os trabalhadores contratados do sistema Petrobrás e dos estaleiros, mostrando mais uma vez a importância de uma política com independência de classe aplicada no dia a dia, pois nesse momento trabalhador irá ouvir aqueles que estão na luta diária pela melhoria das condições de vida da nossa classe, não os que aparecem apenas de 4 em 4 anos. Marcamos presença firme em todas as bases do sindicato, e fomos a passeatas, montando nossas barracas de materiais e distribuímos milhares de panfletos, nos mobilizamos inclusive em outras localidades, como Angra dos Reis e Duque de Caxias. Nossa atuação foi para disputar a consciência dos trabalhadores contra o risco de rápida privatização total da Petrobrás, a perda das nossas liberdades democráticas e o desmonte do Estado.
Viramos esse jogo combinando a ocupação incansável das ruas com a disputa palmo a palmo nas redes sociais. Deixamos nas ruas um exemplo para o país e para o mundo.
Esse sopro de resistência dialoga com o que vemos na juventude em todo o mundo, das ruas da Sérvia aos protestos na França e na Espanha, que, mesmo diante de retrocessos e complexidades globais, seguem se inspirando mutuamente e demonstrando disposição de luta. O exemplo mais categórico desse novo momento internacional ecoa hoje na França e até no coração do império, os EUA, com a juventude estadunidense dando um toque de rua no cálculo eleitoral tanto de democratas quanto de republicanos nas disputas legislativas e midterms.
Contudo, para que não cheguemos daqui a quatro anos diante do mesmo abismo, é preciso tirar lições profundas. A virada no segundo turno deixou clara a necessidade prática de cada jovem e trabalhador de abandonar a propaganda ilusória do “legado lulista” e adotar um rechaço frontal e prático ao bolsonarismo. Mostrar o inimigo a combater sem embelezar o governo. Foi preciso parar de tratar a base popular precarizada como “pobre de direita” ou “gado”, dialogando de fato com suas dores. O voto na extrema direita floresce onde há falta de mudanças estruturais na vida da classe trabalhadora.
E assim, somando as ruas com a mobilização das redes, essa imensa mobilização nacional derrotou o candidato oficial de Trump.
Não voltaremos para casa: seguir a mobilização em defesa das nossas pautas
Vivemos um novo momento político e nós, petroleiros, precisamos nos contagiar com esse clima. O sufoco passou, mas não podemos simplesmente relaxar e voltar para o conforto de nossas vidas individuais. A extrema direita foi derrotada nas urnas, mas segue forte na sociedade, nas instituições do parlamento, nas policiais e em muitas mentes.
Precisamos nos manter nas ruas para enfrentar tanto os reacionários quanto os planos neoliberais de austeridade. Nossa bússola deve ser a independência de classe em relação a qualquer governo, patrão ou aliança de conciliação.
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Vamos aproveitar a força das ruas para avançar na conquista daquilo pelo qual sempre lutamos. Continuaremos mobilizados nos locais de trabalho, no sindicato e nas CIPAs, exigindo da direção da Petrobrás e do governo: a implementação de um Plano de Cargos justo; o fim dos PEDs; a manutenção, ampliação e garantia de direitos no teletrabalho; fim da política de bônus, como os PPPs e PRDs, que servem para aumentar muito a desigualdade na remuneração global; aumento de salários já; anistia já para petroleiros perseguidos em todos os governos; fim das ações judiciais da empresa contra dirigentes sindicais; a imediata incorporação da Transpetro, PBIO, TBG e de todas as subsidiárias na Petrobrás; reais investimentos na transição energética sob controle dos trabalhadores; fim dos leilões do petróleo; pela reestatização de todas as empresas e unidades privatizadas por Bolsonaro e que o petróleo e as terras raras têm que ser nossos. Pela retirada das ações da Petrobrás da Bolsa de Nova Iorque; contra a realização de novos leilões do petróleo e venda de ativos e a defesa da Petrobrás como operadora única e a recomposição da integridade da empresa “do Poço ao Posto”.
Queremos o fim imediato da escala 6×1, implementação imediata das 40hs sem redução de salário e para todos, lutaremos pela 14×21 já e pelo imediato retorno do fundo garantidor.
Contra o novo ajuste fiscal, contra a reforma administrativa e diremos não à PEC da Segurança, que aprofunda a repressão nas periferias e o genocídio da juventude negra.
Com independência e mobilização, vamos à luta por nossos direitos.
Mas antes, um breve balanço que vivemos neste outubro deveras quente.
Uma eleição para lá de atípica – um breve balanço político
O processo eleitoral foi marcado por uma forte ingerência do imperialismo estadunidense de Trump e o alinhamento de figuras execráveis como Javier Milei na Argentina. A tentativa de consolidar um eixo reacionário com as garras imperialistas que já tiveram sucesso na Argentina, Colômbia e Equador teve no Brasil agora o seu alvo central.
Essa disputa eleitoral escancarou a relação promíscua entre as big techs e a máquina da extrema-direita contra os interesses da classe trabalhadora. Enquanto as plataformas da Meta estrangulavam o alcance da campanha de Lula, com alertas inclusive de peritos da ONU, impulsionavam artificialmente a desinformação bolsonarista, gerando distorções como os mais de 146 milhões de visualizações em um único vídeo de Nikolas Ferreira.
Mais grave ainda foi o financiamento direto da guerra psicológica revelado pelo The Intercept Brasil de que a campanha de Flávio Bolsonaro injetou R$ 600 mil e a executiva do PL mais R$ 131,9 mil na empresa Elytron para a criação de fazendas de perfis falsos, deepfakes operados por inteligência artificial e infiltração digital para manipular a opinião popular via cruzamento de big data.
No TSE, o ministro Kassio Nunes Marques atropelou o relator Ricardo Villas Bôas Cueva ao mandar derrubar o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, ordem revogada horas depois por total falta de provas, em articulação com a tentativa do ministro André Mendonça de apagar os canais de comunicação a 48 horas do pleito. A turma do “KN” no TSE também garantiu a transferência forçada de zonas eleitorais de milhares de trabalhadores de bairros e até de países. Governadores e prefeitos bolsonaristas organizaram uma sabotagem criminosa no dia do segundo turno através da ausência deliberada de transporte público e uso de blitz policiais e outras operações similares para tentar mais diretamente barrar o acesso da população às urnas em áreas onde o bolsonarismo tinha desvantagem.
Mas é preciso falar da responsabilidade do governo também nisso. Ao confinar a luta política aos limites do governo e parlamento, educou-se o povo a não acreditar em sua própria força, educação esta que desobedecida garantiu a vitória eleitoral contra a extrema direita. Outro aspecto diz respeito ao horizonte eleitoreiro e a garantia das infinitas negociações que fazem com que a extrema-direita preserve de forma intacta a sua estrutura conspiratória e canais de sabotagem que agem todos os dias contra a soberania do povo.
Mas apesar disso tudo, o jogo virou.
O resultado do primeiro turno e a impressionante campanha da virada
Essa eleição marcou a primeira vez na história brasileira em que uma candidatura derrotada no primeiro turno alcançou a virada no segundo turno. Lula obteve um incremento de 10,4 milhões de votos, consolidando uma vantagem final de aproximadamente 4 milhões de votos sobre Flávio Bolsonaro.
O primeiro turno consolidou o favoritismo de Flávio Bolsonaro e resultou na eleição de uma ampla bancada de parlamentares bolsonaristas para o Congresso Nacional. No entanto, do ponto de vista social e estratégico, este resultado serviu como um “gatilho”. A aparente vitória da extrema-direita demonstrou um enfraquecimento da estratégia da Frente Ampla — que prometia derrotar o bolsonarismo apenas pela via institucional e judicial (via STF/Alexandre de Moraes) — e quebrou a apatia eleitoral que os analistas apontavam até então, despertando os trabalhadores e estudantes.
A resposta ao resultado do primeiro turno veio imediatamente nas ruas, repleta de ânimo e hegemonizada pela juventude. Assumindo o protagonismo, os estudantes universitários e secundaristas do Rio de Janeiro foram os primeiros a protestar de forma espontânea, antes mesmo de convocações oficiais do PT ou de canais digitais, espalhando o movimento pelo país feito rastilho de pólvora através de uma combinação de militância corpo a corpo à digital para furar o bloqueio e virar votos. Na reta final, num exemplo belíssimo de organização e solidariedade, diante das tentativas de governadores alinhados à direita de sabotar o transporte público no dia da votação em estados como São Paulo e Salvador, os estudantes e movimentos periféricos organizaram brigadas de caronas solidárias, vaquinhas e deslocamentos coletivos a pé, garantindo o direito popular ao voto.
Os principais indicadores da virada demonstram um avanço expressivo de Lula em diversas regiões. No Nordeste, ele concentrou 2,96 milhões dos novos votos, enquanto Minas Gerais destacou-se como o único estado onde virou de fato a porcentagem, atingindo 50,43% (cerca de 600 mil novos votos). O maior crescimento absoluto, no entanto, ocorreu em São Paulo, onde, mesmo sob o governo Tarcísio, o atual presidente saltou de 9,5 milhões para mais de 12,1 milhões de votos, vencendo contundentemente na capital e no ABC paulista. No Rio de Janeiro, considerado reduto de Flávio Bolsonaro, a vantagem bolsonarista caiu pela metade (de 1,2 milhão para 600 mil) e Lula sagrou-se vencedor na capital fluminense, ao passo que, em Porto Alegre, atingiu 55,84% dos votos — a maior porcentagem fora do Nordeste —, impulsionado por uma queda na abstenção para 19,2%. Esses números provam que a mobilização de massas nos grandes centros urbanos foi capaz de furar as bolhas digitais, derrotar os algoritmos e reverter o cenário institucional adverso, consolidando a tese de que foi a luta das ruas que determinou a virada nas urnas.
Importante pensarmos também o suposto apoio monolítico dos trabalhadores evangélicos à extrema-direita perante os últimos acontecimentos e como isso pode demonstrar o esgotamento dos fiéis com a exploração política da fé, revelando que o voto bolsonarista é também resultado de assédio e coerção.
Nas áreas de milícias no Rio de Janeiro, por exemplo, o povo pobre foi encurralado por revistas de celulares, veto à panfletagem e ameaças de despejo, gerando um salto de 115,6% nas denúncias de assédio eleitoral. Foi pela via da violência armada, e não pela livre consciência, que a máquina de Flávio Bolsonaro venceu em 268 de 311 seções milicianas para arrancar ali 89% de toda a sua vantagem na capital.
Essa virada histórica contra a extrema-direita foi fruto da demonstração incontestável de que a força da juventude e do povo mobilizado nas ruas é a força social capaz de derrotar a extrema direita. Ao vencer o bolsonarismo nas urnas, com o assédio de grupos como a milícia e a engrenagem desinformativa das big techs e do imperialismo, o povo brasileiro não apenas barrou o retrocesso, mas deixou uma lição para o mundo de que é possível vencer.
Logo após o resultado das eleições, o mercado financeiro fez um tremendo terrorismo, derrubando a Bolsa e disparando o dólar para fabricar um ambiente de pânico e chantagem. Por sua vez, a resposta do governo à pressão foi anunciar medidas para endurecer o ajuste fiscal. É nosso dever conscientizar a população que um novo Ajuste Fiscal, com o orçamento estrangulado, significa mais desmantelamento dos serviços públicos e direitos essenciais para alimentar os lucros dos grandes tubarões capitalistas.
É preciso seguirmos ocupando os locais de trabalho e as ruas para arrancar as mudanças, exigindo a efetivação imediata do fim da escala 6×1 sem redução salarial, barrar um possível novo Arcabouço Fiscal e lutar por uma Petrobrás 100% estatal a serviço do povo. A esperança que dançou nas ruas só continuará viva se continuar lutando!