A ignorância conveniente que deprecia os trabalhadores da Petrobrás

Resposta a um artigo carregado de cunho político neoliberal contra a Petrobrás, seus empregados e sua importância para o Brasil

Em um artigo tendencioso e sem qualquer aprofundamento sobre a força de trabalho do sistema Petrobrás, o Sr. Ricardo Gallupo, jornalista e diretor de jornalismo do “Hoje em Dia”, jornal de Belo Horizonte-MG, ataca a Greve Petroleira ao tentar vender a ideia de que o movimento, encerrado nesta quinta (20), seria ilegítimo e injustificável por apresentar cunho totalmente político.
O autor, que também é integrante do Instituto Millenium, uma think tank neoliberal criada pelos barões da mídia no Brasil, e que também foi diretor de redação da Forbes Brasil, a revista dos milionários esbanjadores, maldosamente apresenta inverdades para desmoralizar a categoria petroleira e doutrinar o povo brasileiro contra a estatal.

Inverdade  – O número de empregados da Petrobrás

Suas incorreções começam pelo número de empregados no sistema Petrobrás: mais de 60 mil, segundo ele, versus 57.983, de acordo o Relatório de Administração da Petrobrás divulgado em 19/2. Gallupo não deve ter conhecimento dos diversos programas de desligamento voluntário. A empresa trabalha com baixo efetivo em inúmeras gerências, destacando-se que a complexidade e a completude do parque do sistema Petrobrás exige contingente de pessoas para operar, manter, gerenciar e desenvolver pesquisa e tecnologia. A “incompetente e inchada” Petrobrás, recebeu pela 4a vez o disputado Oscar da indústria do petróleo ( OTC Achievements Distinguished Award). E as concorrentes, por que não levaram o prêmio?

Inverdade – A greve não pôs em risco o abastecimento

Adicionalmente, o jornalista amigo dos barões da mídia afirma que durante os 20 dias de greve, não faltou uma gota de combustível. O Sr.Galllupo não deve ter tomar conhecimento de que é da prática da Petrobrás manter estoques reguladores para garantir o suprimento da demanda do mercado, especialmente após a direção da empresa, em 2016, ter adotado a PPI (Política de Paridade Internacional) para precificar combustíveis desnecessariamente mais caro que o devido, onerando a população e tornando suas refinarias ociosas. A AEPET e o Sindipetro-RJ já publicaram vários artigos esclarecendo os danos da PPI para a população e a própria empresa, mas o autor deve desconhecer, dada a psicose atual de associar toda a crítica à realidade que vivemos a uma defesa do PT. Obviamente que o jornalista igualmente não possui conhecimento do ciclo de produção da indústria do petróleo, abrangendo inclusive refino, distribuição e o abastecimento dos postos que atendem à população. A ANP, ainda ao 17º dia de greve, havia expressado, através de seu diretor-geral, Décio Oddone, que o movimento grevista não havia afetado a produção, mas haveria risco caso a greve tivesse continuidade, já que as equipes de contingenciamento estavam diminuindo. Inclusive, equipes que trabalharam de forma extenuada, obrigadas pela empresa, como aconteceu na Refinaria Presidente Bernardes em Cubatão-SP (RPBC), em que um funcionário ficou em cárcere privado por 254 horas, sendo somente liberado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT).
Se a greve tivesse durado mais algumas poucas semanas, não haveria como se esconder seus efeitos.
Vale lembrar que a direção da Petrobrás se recusou a negociar com os sindicatos qualquer acordo para formação de equipes para garantir a produção.

Inverdade – Fabricar fertilizantes não é atividade fim da empresa

Ao falar sobre o fechamento da fábrica da Araucária Nitrogenados (ANSA – FAFEN-PR), Ricardo Gallupo dá mais uma “bola fora” mostrando sua ignorância ao tentar justificar a demissão de cerca de mil trabalhadores, entre efetivos e terceirizados, usando um argumento de que a Petrobrás é “uma empresa encarregada de prospectar, explorar e refinar o petróleo do Brasil, mantém uma subsidiária que produz fertilizantes para a lavoura”. Ora, o desinformado jornalista neoliberal não consegue entender que as concorrentes estrangeiras também investem em segmentos que valorizam seu portfólio de produtos, como fertilizantes nitrogenados, biocombustíveis, petroquímicos etc.
O Brasil é o quarto maior consumidor de fertilizantes do mundo. Como um negócio destes pode não ser atraente? O jornalista parece que desconhece o novo jingle do momento: “o agro é pop”!

Outra coisa que ele não sabe é que a ANSA produz o ARLA 32, um aditivo veicular de uso obrigatório, por parte do CONAMA, para toda frota diesel do país. E por acaso não temos aí um lucrativo mercado?
O tão alardeado prejuízo da ANSA, deve-se ao custo da matéria prima, que é fornecida pela própria Petrobrás. A forma de precificar esta matéria prima, atrelada às variações internacionais, é o que onera a fábrica. E isso, se a empresa tivesse uma direção séria e comprometida, poderia ser mudado a qualquer tempo, sem fechar a fábrica, sem demissões e garantindo lucro e soberania para o Brasil.
Agora responda você, prezado (a) leitor (a), a “argumentação” sem bases do senhor Ricardo Gallupo é jornalismo ou política, tal qual o que ele condena? As informações estão disponíveis para quem quiser pesquisar e fazer seu próprio julgamento. Os países que os brasileiros tanto admiram não cresceram à base de políticas de redução de empregos e entrega dos recursos e mercados nacionais a outros países ou multinacionais exploradoras.

Inverdade – Os petroleiros nunca denunciaram corrupção na Petrobrás

Prosseguindo com sua falácia descabida o diretor de jornalismo do “Hoje em Dia” imputa aos petroleiros a pecha de omissos por terem ficado “mudos e imóveis” durante o período em que a Petrobrás foi vítima de “pilhagem” nos últimos anos.
Durante esse período em que o jornalista diz que os petroleiros se omitiram em relação a corrupção nos governos do PT, cabe informar que a FNP denunciou de forma incisiva a forma como o fundo de pensão dos petroleiros, Petros, foi usado para financiar investimentos suspeitos, sempre pedindo uma auditoria independente. E depois de 15 anos de luta, em 2018, finalmente , o Conselho Fiscal da Petros conseguiu contratar uma empresa para isso. Já em 2004, Fernando Siqueira, conselheiro eleito pela categoria, presidente naquele época do Conselho Fiscal, recomendava a rejeição das contas do exercício de 2004. Foram diversos pareceres com apontamentos sobre dados suspeitos que sequer eram avaliados pelos órgãos de fiscalização como a Secretaria de Previdência Complementar (SPC), que foi posteriormente sucedida pela Superintendência Nacional de Previdência Complementar – a PREVIC E também ao Ministério Público Federal (MPF).

Cabe também lembrar que os exercícios compreendidos entre os anos de 2012 e 2016 foram rejeitados por unanimidade pelo Conselho Fiscal, incluindo os representantes das patrocinadoras. Essa situação explica o déficit acumulado ao longo desses anos que chega hoje a mais de R$ 30 bi, e que há dois anos foi jogado no colo dos participantes (ativos, aposentados e pensionistas) que pagam a cada mês a fatura desses desmandos. Outro dado que o Sr. Gallupo deveria apurar é que a Petrobrás possui um passivo gigantesco para com a Petros de mais de R$15bi, mas não se mexeu até hoje para resolver.
Ainda em maio de 2014, o Sindipetro-RJ publicava um texto assinado por Ronaldo Tedesco e Silvio Sinedino, respectivamente, naquele ano, conselheiros eleitos da Petros pela categoria, em que denunciavam a ação da Federação Única do Petroleiros (FUP), essa mesma federação, ligada ao PT, citada no texto do jornalista Gallupo, de usar a Petros como bunker para financiar políticas públicas do então governo.
“Senhores da FUP: não terão a nossa concordância para gastar o dinheiro dos petroleiros ativos e aposentados sem o conhecimento e o consentimento destes. Se a direita, que são os novos amigos que vocês fizeram nos últimos anos, está sujando o nome da Petrobrás e da Petros, só faz isto pelo silêncio nefasto que vocês têm mantido. Graça Foster e Guido Mantega estão reféns de corruptos por uma opção política que vocês fizeram em 2003, no momento em que assumiram o Palácio do Planalto e preferiram se calar diante da corrupção e da venda dos direitos e do patrimônio dos trabalhadores e do povo brasileiro” – dizia o texto que pode foi reproduzido na íntegra no site do Sindipetro-AL/SE neste link (https://sindipetroalse.org.br/noticia/1116/o-inimigo-esta-dentro-uma-resposta-as-calunias-dos-governistas )

Outro ponto importante na luta petroleira contra a corrupção foi a compra da Refinaria de Pasadena em 2006. Os sindicatos da FNP, em especial o Sindipetro-AL/SE, denunciavam desde aquele ano em que Dilma Rousseff ainda era Chefe do Gabinete Civil do governo Lula e presidente do Conselho de Administraçao da Petrobras, que a aquisição do ativo nos Estados Unidos era um mau negócio.
Portanto, Sr. Gallupo, não procede a informação de que os petroleiros, da parte da FNP e seus sindicatos filiados, se omitiram das maracutaias nos anos petistas.
Nunca e em nenhum momento, os barões da mídia, amigos do Sr. Gallupo, deram um nota sequer sobre denúncias de sindicatos petroleiros sobre a corrupção na Petrobrás.
Para comprovar a má vontade desta mesma mídia com os sindicatos em sua luta contra a a corrupção na Petrobrás, cabe retomar às diversas denúncias contra o ex-presidente da Petrobrás, Pedro Parente.
Em 27 de outubro de 2019, o Sindipetro-RJ publicou que FNP denunciava o presidente da Petrobrás, Pedro Parente, conforme protocolado no Ministério Público Federal, no Rio de Janeiro. O motivo era a suposta fraude na venda dos campos de Baúna e Tartaruga Verde, situados nas bacias de Santos e Bacia de Campos, respectivamente.
A fraude, segundo a denúncia, está baseada no esquema de corrupção praticado por Parente para vender ativos da Petrobrás sem licitação, em que, através de sua diretoria, escondeu dos tribunais, dos acionistas e, principalmente, de seus trabalhadores e do povo brasileiro, que a proposta da australiana Karoon Gas era falsa. Estava embasada na parceria da Karoon com a maior petroleira australiana, a Woodside Energy.

Isto porque o capital social da Karoon é três vezes menor do que a oferta feita para os dois campos juntos, que já estavam muito aquém de seu verdadeiro valor. Como uma empresa de U$ 450 milhões quer comprar ativos no valor de U$ 1,6 bilhões? A Karoon se apoiaria na Woodside. Porém, esta não participava do negócio, como a mesma informou à Petrobras.
O jornalista do “Hoje em Dia” e seus amigos do Instituto Millenium deram alguma nota sobre este fato?

Inverdade – O atual ACT mantem os privilégios dos petroleiros

Por fim, ainda no texto em que tenta manchar a recente Greve Nacional Petroleira, o jornalista Gallupo mitifica mais uma vez, como é usual e recorrente na grande mídia neoliberal, a imagem de que o funcionário da Petrobrás é um marajá “por terem assinado um ACT que manteve todas as regalias que eles já tinham, além de conceder um reajuste de 2,5% sobre os gordos salários que já ganham”. Essa parte do texto de Ricardo Gallupo mostra o quanto o “especialista” em Petrobrás carregou de forma mal intencionada na tinta da inverdade.
É importante lembrar que ao longo dos anos, a categoria petroleira conquistou direitos não por conta da concessão ou boa-vontade da direcao e de gestores da Petrobrás. É uma luta que se desenvolve com o fortalecimento do movimento sindical em diversas fases da história da companhia. Foram e são diversas mobilizações, como a recente Greve, encerrada neste 20 de fevereiro, que propiciaram o advento de melhorias econômicas e sociais dentro da empresa, isso contando com a questão que envolve segurança e saúde do Trabalho. Nenhum petroleiro obteve nada de graça no sistema Petrobrás. Para começar, o processo seletivo, através de concurso público, é um dos mais rigorosos do Brasil, quem entra por indicação, o famoso QI, são os inúmeros gestores e assessores indicados por apaniguados políticos na empresa. O Sr. Gallupo, se apresentando como especialista em Petrobrás e “profundo” conhecedor da sua força de trabalho deve saber, obviamente, do séquito neoliberal de Roberto Castello Branco, presidente da empresa, que conta com uma vastidão de nomeados, e de indicados políticos como o Sr. Cláudio Costa, afilhado do atual governador de São Paulo, João Dória. O próprio Castello Branco é um total despreparado para o cargo que ocupa, haja vista suas declarações sobre a gestão de uma indústria de petróleo, focada só em óleo & gás, na contramão das concorrentes mundiais.
Outra inverdade a ser mencionada sobre o texto de Ricardo Gallupo, que foi publicado no site IG, é sobre o percentual de 2,5%, a título de reajuste salarial obtido pelos petroleiros. O número correto é de 2,3%, o que equivale a 70% do INPC apurado de setembro de 2018 a agosto de 2019, que foi de 2,92%. Isso mostra que nem reposição da inflação os petroleiros conseguiram, acumulando assim perda salarial.

Este mesmo ACT assinado ao final de novembro de 2019 teve um desfecho muito complicado. Tivemos uma dura negociação com a direção da Petrobrás que abusou de atos antissindicais e assédio moral coletivo, mudando o caráter de suas reuniões gerenciais, bem como utilizando todo seu poder econômico, determinando a presença dos gerentes e suas equipes nas assembleias e pressionando pela aceitação das propostas de retirada de direitos e redução salarial.
No mais, para encerrar, é da praxe desses neoliberais, para defenderem os interesses de seus patrões, como faz Gallupo em seu texto, atacar a força de trabalho do sistema Petrobrás. Esses “especialistas” do mercado sempre recorrem a velha tática de depreciar qualquer movimento que coloque em xeque os interesses de seus senhores da burguesia brasileira que sugam o Estado e a Petrobrás.
Nós petroleiros estamos atentos e rebateremos todas as inverdades que forem ditas.

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