Evento que ocorreu na quinta-feira (28/08) na Câmara dos Deputados, organizado pela Comissão de Legislação Participativa, debateu a adoção de medidas diplomáticas e comerciais pelo Estado brasileiro em relação ao conflito na Palestina, com o objetivo de suspensão de relações com Israel, com imposição de embargos militares e energéticos, com revogação do atual tratado de livre comércio, em vigência
Petroleiros não podem aceitar que a Petrobrás e o Brasil sejam cumplices de um genocídio
Leandro Lanfredi, diretor do Sindipetro-RJ e da Federação Nacional dos Petroleiros (FNP) foi um dos convidados para participar da audiência, fazendo uma exposição com uma denúncia de como o petróleo brasileiro, explorado por empresas como Petrobrás, Shell, Equinor, Prio, entre outras empresas de petróleo, chega a Israel, abastecendo diretamente ou indiretamente o genocídio que já matou mais de 62 mil palestinos em Gaza.
“Eu venho aqui representando uma posição que foi votada na maior instância deliberativa do Sindicato que participo, o Sindipetro-RJ, com posição também adotada na Federação Nacional dos Petroleiros (FNP), que é de sermos contrários de envio de qualquer gota de petróleo do Brasil para Israel. Fizemos em maio uma carta conjunta (FNP e FUP), dirigida ao governo Lula, solicitando o fim desse envio. Falo com a dor de quem tem um uniforme que além da bandeira do Brasil, tem o nome da Petrobrás bordado, como fruto da luta dos trabalhadores do povo do nosso país, sabendo que essa riqueza extraída com o suor de brasileiros, muitos que passam semana em alto mar, longe de suas famílias, tenha como destino um genocídio”, destacou Lanfredi em sua fala na audiência.
Brasil abastece a máquina de extermínio de Israel
O representante do Sindipetro-RJ/FNP apresentou um levantamento de como são realizadas as exportações do óleo e derivados brasileiros para Israel, abastecendo assim a máquina de extermínio israelense contra o povo palestino. Lanfredi mostrou que o Brasil, durante a fase mais aguda do extermínio em Gaza, aumentou em 51% suas exportações de petróleo para Israel, quando comparando as exportações de 2023 e 2024, se tornando, infelizmente, cúmplice da barbárie contra os palestinos.
“Neste levantamento constatamos a participação da Shell e da Petrobrás, em petróleo oriundo, por exemplo, do Pré-Sal, do Campo de Mero, operado pelas empresas em consórcio, derivado da plataforma FSPO Guanabara, de propriedade da Petrobrás, sendo ela totalmente terceirizada e privatizada, operada pela Modec, multinacional japonesa de operação de plataformas marítimas”, indicou o sindicalista, mostrando que há uma relação entre privatizações, entrega de soberania e financiamento da máquina de guerra de Israel.
O Campo de Mero tem a Petrobrás como operadora, com participação de 38,6%, e a Shell Brasil, TotalEnergies, CNODC, CNOOC e PPSA (representante da União) também integram o consórcio.
A conexão Itália
Lanfredi discorreu que em 2025, o Brasil está realizando transações triangulares para a venda de petróleo para Israel, com venda indireta sendo realizada para a Itália que refino o óleo oriundo do Brasil. “A Itália no mês passado chegou a fornecer mais de 50% de todos os derivados que Israel importa. A principal refinaria que entrega derivados para Israel é a de Saras, na Sardenha, de propriedade da Vitol, uma grande trader. Somente essa refinaria é responsável por 28% do que Israel importou, refinou cerca de 20% do petróleo brasileiro. Então, esse petróleo faz um “pit stop” na Itália antes de chegar em Haifa, em Israel.”, denuncia o petroleiro.
Ainda segundo o levantamento, a Petrobrás é responsável por 33% do que é exportado e 67% é da estatal norueguesa Equinor, que opera no Brasil. O óleo é oriundo da plataforma P-62, operada pela Petrobrás e da FSO Cidade de Macaé, que também é de propriedade da Petrobrás, operada da mesma forma pela Modec.
No último mês de julho foram realizadas outras entregas em Saras pela Shell, e recentemente pela Prio, antiga PetroRio, operadora de campos maduros de propriedade da Petrobrás que foram privatizados.
A Audiência Pública apresentou um tom de exigência de ruptura das relações diplomáticas e comerciais entre Brasil e Israel, sendo isso bem presente nas falas dos palestrantes. Participaram da Audiência Pública, além do Sindipetro-RJ:
Breno Altman – Jornalista e Fundador do Portal Opera Mundi; Embaixador Clélio Nivaldo Crippa Filho – Diretor do Departamento de Oriente Médio (DOMA)/MRE; Ahmed Shehada – Presidente do Instituto Brasil-Palestina (IBRASPAL); Maynara Nafe – Federação Árabe-Palestina (FEPAL); Francesca Albanese – Relatora Especial da ONU para os Territórios Palestinos Ocupados ; Representante do Vozes Judaicas por Libertação ; Nuredin Allan – Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD); Andressa Soares – Representante do movimento “Boycott, Divestment and Sanctions” – BDS Brasil ; Badra El Cheikh – Instituto Palestino de Diplomacia Pública; Vladimir Safatle – Professor do Departamento de Filosofia da USP ; Mohammed El-Kadri – Presidente do Fórum Latino-Palestino ; Yasser Yassine – Delegado da Polícia Civil de Goiás, de origem palestina ; Berenice Bento – Doutora em Sociologia e Professora do Departamento de Sociologia da UnB ; Caio Barroso – Influencer e Advogado Especialista em Direitos Humanos ; Heitor Carvalho Júnior – Advogado da brasileira Assmaa Abu Aljedian (presa em Gaza).
Confira a íntegra da Audiência Pública